Atores de Roda Viva foram espancados em 1967. Maikon K é preso durante espetáculo 50 anos depois


foto: divulgação Palco Giratório Sesc

É impossível digerir a maneira violenta como alguns policiais militares do Distrito Federal imprimiram ao artista paranaense Maikon Kempinsk durante a apresentação do espetáculo “DNA de DAN”. Na performance que integra o catálogo nacional de espetáculos do Palco Giratório do Sesc, Maikon K, como é conhecido, tem seu corpo coberto por uma substância que leva cerca de duas horas para secar. Ele está dentro de uma bolha de plástico transparente e o público acompanha a transformação do corpo nu. A pele rompe-se conforme os movimentos da dança. A concepção do artista relaciona DAN, uma serpente ancestral africana que deu origem a todas as formas de vida, com o corpo humano.

Pois foi durante essa intervenção urbana de dança-instalação, no último sábado (16), por volta das 17 horas, ao lado do Museu Nacional da República, em Brasília, que a polícia militar invadiu o palco, encerrou a apresentação, destruiu o cenário, prendeu Maikon K e o levou para a 5ª Delegacia de Polícia, sob alegação de ato obsceno. Isso mesmo: ATO OBSCENO, cuja pena varia de três meses a um ano de detenção.


foto: internet

A igreja católica perseguiu muito o nu artístico na escultura e na pintura. Um exemplo do combate ao que o Vaticano denominava apelo carnal foi o afresco do Juízo Final, no teto da Capela Sistina, no Vaticano, obra prima de Michelangelo (1537 e 1542). A pintura sofreu intervenção para esconder as genitálias das personagens, mas na restauração, em 1980, todas as vestimentas incluídas foram retiradas da obra original.

A referência à Capela Sistina é para lembrar que esse tipo de perseguição à arte já era criticada na primeira metade do século XVI. Particularmente, adoraria saber a opinião do Papa Francisco sobre essa atitude repressora da polícia em pleno século 21.

The Sistine Chapel. Vatican, Rome, Italy

A ação da PM na capital da República remete, inevitavelmente, ao triste período de censura da ditadura militar. No livro Amordaçados: uma história da censura e de seus personagens, a jornalista Julia Carvalho aborda a censura desde o Brasil Colônia até a redemocratização do país.

Pois há exatos 50 anos, em 18 de julho de 1967, artistas foram espancados por integrantes do Centro de Caça aos Comunistas (CCC). O grupo paramilitar invadiu o teatro Galpão de Ruth Escobar, em São Paulo, e agrediu o elenco da primeira apresentação de Roda Viva de Chico Buarque.
O ataque está registrado no livro Maria Ruth – Uma Autobiografia que conta a trajetória de Ruth Escobar. A atriz e diretora produziu
espetáculos revolucionários e marcantes do teatro brasileiro.

Maikon K publicou sua manifestação nas redes sociais
www.facebook.com/maikon.kempinski



imagem: youtube

Versão da Polícia Militar
Através de nota a Polícia Militar disse que foi chamada para resolver o problema de um homem nu no Museu da República.”Como não foi apresentada nenhuma documentação/autorização do museu tampouco da administração de Brasília, foi determinada a paralisação da referida exposição e foi dada voz de prisão ao elemento nu.”

O governador Rodrigo Rollemberg e o secretário de Cultura Guilherme Reis telefonaram para pedir desculpas ao artista e publicaram nota na página oficial. www.df.gov.br

Trecho da nota oficial do Sesc-DF
“A proibição da performance em Brasília, os prejuízos materiais à obra e a detenção do artista constituem uma arbitrariedade que coloca em risco não apenas a liberdade de expressão, assegurada pela Constituição Brasileira e por documentos internacionais dos quais o Brasil é signatário, mas interfere nos direitos culturais do público. Não vivemos mais em uma época em que um policial militar pode definir isoladamente a realização ou não de um evento”.

Eliseu Padilha achou normal troca de deputados na CCJ para barrar denúncia contra Temer

Brasília – Ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Ministro Padilha saiu da toca e isso é sinal de que o governo saiu do paredão. Desde o escândalo dos irmãos Batista que Eliseu não aparecia muito na imprensa, mas nesta sexta-feira, 14, voltou ao cenário para explicar a troca de deputados na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). “Absolutamente normal, do jogo político do Congresso Nacional”, disse o ministro em entrevista ao Gaúcha Atualidade.

As 25 substituições garantiram a rejeição do relatório do deputado Sergio Zveiter (PMDB-RJ). Na CCJ foram 41 votos a favor de Michel Temer e 24 contra, o que representa quase dois por um. Agora o Plenário da Câmara dos Deputados votará outro relatório, o do deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB -MG) que recomendará a suspensão desse processo contra Temer no Supremo Tribunal Federal (STF).

O governo já usou esse tipo de expediente na escolha dos ministros. Na Saúde foi anunciado que seria um notável, mas na última hora o PP indicou o deputado Ricardo Barros (PP). Padilha relatou em palestra na Caixa, em São Paulo, em fevereiro deste ano: “Vocês garantem todos os votos do partido nas votações?”. “Garantimos”. “Então o Ricardo será o notável.” Confira gravação divulgada pelo Estadão.

Padilha admite troca de votos por ministério; ouça o áudio ESTADÃO

Pelas palavras do ministro é possível notar que o governo não medirá esforços para conseguir 172 votos, entre os 513 deputados, para aprovar esse novo relatório, impedindo assim que o STF prossiga com a investigação. A sessão ficou marcada para depois do recesso, dia 2 de agosto.

A contagiante inquietação do repórter Carlos Wagner


Carlos Wagner foi homenageado no 12º Congresso da Abraji (Foto: Alice Vergueiro/Abraji)

Se ainda não viste o filme sobre a trajetória do repórter Carlos Wagner de Zero Hora, faça isso agora mesmo. É para rir e se emocionar. Sabe quando escolhemos jornalismo pensando em mudar o mundo? Pois é, o Wagner, como nunca vi alguém fazer, passa essa certeza: o jornalismo pode sim, mudar o mundo. Como? Aí cada um tem que descobrir, se realmente quiser, quais histórias verdadeiras pode contar, independente de estar em veículo tradicional ou em mídias independentes.

Este filme sobre a trajetória do repórter foi realizado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), para homenagear Carlos Wagner no 12º Congresso Internacional da entidade, em São Paulo. Sua inesgotável disposição é uma injeção de ânimo em qualquer jornalista que ainda acalente aquele desejo de viver de contar boas histórias.

No meu tempo de rádio Gaúcha tive oportunidade de conviver com o Carlos Wagner, pena que foi pouco, mas nos plantões de final de semana vi que ele valorizava uma simples “ronda policial”. Pensava eu: como esse baita jornalista dá importância para uma informação que rende, no máximo, uma notinha? Que história tem aí que eu não peguei? Talvez fosse só uma inquietação, mas aprendi e ele nem sabe disso, pois nunca contei, que uma coisa é dizer que uma grande matéria pode estar numa “ronda” e outra é entender como isso funciona.

Obrigada, Carlos Wagner

Saiba mais sobre a vida do “Repórter na estrada”, como ele mesmo se define, em: