Silêncio das panelas, mudez das ruas e negociatas livram Temer da investigação

Brasília – Plenário da Câmara rejeita autorização para STF investigar denúncia contra o presidente Michel Temer (Wilson Dias/Agência Brasil)

Deputados livram Temer de investigação pelos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e obstrução da justiça. (foto- Wilson Dias/Agência Brasil)

O mundo inteiro viu deputados fazendo pouco caso da rejeição do presidente Temer por mais de 80% da população. Alguns com comportamento colegial foram repreendidos pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Como se não bastasse, um parlamentar machista berra “gostosa” quando uma colega é chamada para registrar presença. Rodrigo Maia perdeu a oportunidade de alertar que o ato sexista não é atitude de homem, muito menos dentro do Congresso Nacional.

A vitória de Temer na Câmara Federal não me surpreendeu. O que me assustou foi com o silêncio sepulcral das panelas. A orquestra dos paneleiros parecia um símbolo de combate à corrupção, mas era apenas uma manifestação barulhenta contra o governo Dilma. Não estranhei os parlamentares que vociferaram contra a corrupção, na votação que aprovou o impedimento da ex-presidente, terem barrado a investigação de Michel Temer pelos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e obstrução de justiça. Fiquei incomodada com a mudez das ruas.

Sumiram as chamadas “pessoas de bem”, que faziam “manifestações pacíficas” sem representação de partidos políticos e com o apoio irrestrito da imprensa. Para onde migrou toda aquela gente que clamava pelo fim da corrupção? Aquelas pessoas não dão a menor pelota se Temer está denunciado, se tinha uma mala com R$ 500 mil, se muitos dos seus ministros são réus ou se o governo comprou votos dos deputados antecipando dinheiro de emendas parlamentares.

Segundo levantamento do Jornal Valor Econômico, Temer gastou mais de R$ 13 bilhões para barrar a denúncia do Ministério Público Federal e aceita pelo Supremo Tribunal Federal. Foram R$ 4,15 bilhões com emendas parlamentares e R$ 13,2 bilhões para refinanciar a dívida de produtores rurais e aumentar os royalties da mineração.

Agora temos que preparar o bolso para pagar essa conta elevadíssima. Além da reforma da Previdência, que só os empresários acham necessária, deve vir arroxo salarial e mais cortes em programas sociais. Sem contar, é claro, com mais aumento de imposto.

A corrupção da Odebrecht anestesia o país


foto: Intercept
É de impressionar a naturalidade com que os executivos da Odebrecht revelam como os políticos eram corrompidos. Escandalosa também era a maneira como o chefe máximo da empreiteira retirava os obstáculos do caminho: “você atenda”, ordenava Emílio.

Esse dinheiro que está indo para o bolso de corruptos e corruptores, há décadas, deveria estar em escolas, postos de saúde e hospitais, segurança, estradas, etc. Será que as autoridades que cometeram esses crimes se comovem com alguma coisa? Será que em algum momento pensam na população, nas pessoas que morrem de fome? Será? Será que ao tomarem um vinho de R$5 mil não sentem um gosto de leite? De milhares de litros de leite que esse dinheiro desviado daria para comprar?

Acho que não sentem nada!

Tem muita gente que nem era nascida e a Odebrecht já comprava autoridades. O pior é que não era e continua não sendo com o dinheiro dela. Se os preços das obras atingem valores astronômicos, para separar a propina, esse dinheiro pertence a todos nós.
Sabemos disso, mas estamos catatônicos com tantos escândalos de corrupção.

A população não consegue reagir. Está anestesiada.

A encruzilhada do MPF: provar os crimes dos políticos ou cair no descrédito da população

O ministro Edson Fachin do Supremo Tribunal Federal(STF) liberou a lista com nomes das pessoas que devem explicações à sociedade, conforme entendimento do Ministério Público Federal. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, quer investigar oito ministros do governo Temer(32%), 12 governadores(45%), 24 senadores(30%), 39 deputados federais(7,5%), um ministro do Tribunal de Contas da União(9%), além dos 3 últimos presidentes do país, FHC, Lula e Dilma. Também estão na lista outras autoridades com ou sem mandato.

foto site Brasil 247

Esse é o nosso maior escândalo político resumido em percentuais. Dizer que a República caiu seria um exagero, mas abalou muito o sistema brasileiro. É importante dizer que trata-se de uma autorização, para investigar e ninguém está condenado de fato.

Agora cabe aos procuradores da Lava jato apresentar as provas, visto que as suspeitas são oriundas de delações de executivos e ex-executivos, principalmente da Odebrecht e Braskem.

E se o MP não estiver bem calçado como se diz, e esse tsunami virar uma sanga? E se isso prescrever, virar prisão domiciliar, conversão em cestas básicas ou, o que é pior, cair no esquecimento?

Estamos falando de corrupção, lavagem de dinheiro, formação de cartel, caixa dois e outros crimes, envolvendo um terço do poder executivo federal, quase a metade dos executivos estaduais, mais o Congresso e outras instâncias de poderes constituídos. Não há como ficar passivo diante disso!

Também não se pode achar que o Ministério Público terá sucesso em 100% dos casos. É claro que isso não vai acontecer. Eu já ficaria satisfeita se os procuradores conseguissem denunciar o mesmo percentual de crimes que eles estão convictos que os políticos cometeram. Suspeitam de 8 ministros? Que no mínimo tenham as provas para denunciar 30% deles. É isso ou além dos políticos, quem ficará desacreditada é a instituição.
Aguardemos!