Consumidores denunciam golpe de frentista e vídeo viraliza

Ainda estou chocada com o que aconteceu comigo no posto Ipiranga Lyon, na Avenida Sertório, nº 3837, próximo da Rua da Várzea, em Porto Alegre.

Já havia abastecido e estava indo embora, mas lembrei que precisava calibrar os pneus. Um jovem frentista muito atencioso fez o trabalho, agradeci e já saía quando ele me avisou num tom de voz mais alto: “Senhora, tá saindo fumaça do seu carro. Abre o capô”.

Assustada, abri imediatamente o capô e fui em frente ao carro para ver o que acontecia. O rapaz já estava abrindo a tampa do recipiente que armazena um líquido cor de rosa para o arrefecimento do radiador.

– “Olha só, estava aberta a tampa! Alguém mexeu aqui?”, perguntou o frentista.

Respondi que o carro tinha sido revisado na concessionária há pouco tempo e que nunca permito que abram o recipiente do líquido rosa. Mas ele se manteve firme em convencer-me dos riscos que corria. Perguntou se eu morava próximo e tal e insistiu:

– “Toque aqui nessas mangueiras prá senhora ver como tá quente”.

Respondi que achava normal pois o motor estava quente. Ele seguiu listando os riscos:

– “Se andar no carro nesse estado, pode queimar a bomba d’água, mais isso, mais aquilo, até fundir o motor”.

Outro frentista se juntou a ele e reforçou os perigos iminentes. Parecia que meu carro era uma arma química letal. Fiquei entre a dúvida e a contrariedade, mas achei que não valia economizar R$ 200,00 diante de tamanho risco.

Acompanhei o serviço no setor Jet Oil da Ipiranga, mas achando que estavam pulando fases. Sugaram o líquido, que parecia novo, para um recipiente grande e soltaram as mangueiras. Parecia um ki-suco de morango escorrendo no chão. Não precisava entender coisa alguma de radiador para ver que, no mínimo, um pequeno dano ambiental estava ocorrendo ali.

Líquido cor de rosa ainda, espalhado no chão

Por intuição, suspeitei que a operação ainda não estava completa quando começaram a colocar o produto novo. Questionei, mas argumentaram, os dois frentistas que me atendiam, que aqueles líquidos não se misturavam. Pensei na água e no óleo e deixei assim para não parecer muito burra e empurrarem mais alguma coisa. Mas estavam dispostos a faturar naquele sábado. Se olhavam, cochichavam… Então percebi que colocavam um outro produto, nem sei o que era, no compartimento da gasolina. Se é que colocaram, pois a agilidade era de Fórmula 1.

Sentindo que o valor iria aumentar, perguntei o que estavam colocando no tanque e reclamei. Disseram que era necessário por causa da troca do fluido blá, blá, blá. Mais R$ 150,00 pelo frasco de 450 ml. Fiquei danada da vida, disse que estava desconfiando da seriedade deles, que levaria o carro na concessionária e, se nada daquilo fosse necessário, voltaria para pegar meu dinheiro.

O gerente disse que não estipulavam preços e não me deu assunto. Solicitei nota com a especificação de tudo e, apesar da minha bronca, foram generosos e parcelaram os R$ 349,50 no cartão e sem juros.

Produto pra limpeza da injeção eletrônica dos carros

Deixei o posto pensando que o meu sábado poderia ter sido sem fluido de arrefecimento, líquido de arrefecimento ou aditivo de arrefecimento e sistema de injeção. Parei no próximo posto Ipiranga para conferir os preços e, para completar minhas suspeitas, o frasco de R$ 150,00 custava R$ 29,90. Fui em outro posto da mesma bandeira e perguntei se aquele produto necessitava ser colocado quando se fazia a troca do líquido do radiador.

Certamente o frentista me achou uma analfabeta em mecânica, mas respondeu com educação:

– “Não, senhora. Isso é para misturar com a gasolina”, garantiu ele.

Voltei ao posto disposta a pegar meu dinheiro. O gerente disse que não estabelecia preço e não podia fazer nada. Falei que chamaria a polícia.

– “Pode chamar. Faça o que a senhora quiser”, provocou ele.

Para o azar deles, naquele momento, outro cliente reclamava da mesma coisa. Identificamos que a abordagem assustadora e mentirosa foi idêntica e a facada também. Unimo-nos e chamamos a polícia que, aliás, atendeu-nos muito bem. Senti segurança com a presença deles para seguir adiante.

Gilmar também teve que fazer a mesma operação no seu carro

Enquanto os brigadianos registravam o ocorrido, resolvi relatar tudo numa transmissão ao vivo pelo Facebook. No domingo à tarde o vídeo começou a repercutir. Estava em 7 mil visualizações, à noite, 200 mil e na manhã de segunda-feira ultrapassava 300 mil.


Atendidos pelos policiais Matheus(E) e Fagner

Tínhamos combinado seguir adiante com a denúncia e assim fizemos: fomos à Delegacia do Consumidor e ao Procon de Porto Alegre. No meio da tarde soube que uma ação conjunta desses órgãos com o Inmetro e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) autuou o Posto Ipiranga Lyon e interditou três bicos de bombas por irregularidades. Uma delas entregava menos combustível que o marcado na bomba.


órgãos de defesa do consumidor

Agradeço as mensagens de apoio e também as centenas de relatos de pessoas que passaram por um problema semelhante ao meu no posto Ipiranga Lyon (Sertório, 3837, Porto Alegre) ou em qualquer outro posto da capital ou de qualquer cidade brasileira.

Para ter resultado tem de haver uma denúncia. É um direito nosso, não deixemos de fazê-la.

Vai haver alguém te criticando nas redes sociais, mas não dê bola nem troque ofensas. Deixe a fiscalização agir. A notícia está nas TVs, rádios e sites de notícias tradicionais e nas mídias alternativas. Em três dias o vídeo chegou a um milhão e meio de visualizações. Atribuo esse interesse das pessoas a uma coisa só: elas também foram vítimas desse tipo de golpe ou conhecem alguém que foi.

MBL assume autoria do atentado contra a arte em Porto Alegre

Obra de Bia Leite.

Ando inconformada com o perfil conservador e intolerante que começa a surgir no Rio Grande do Sul. A mobilização nas redes sociais pedindo o boicote à exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, no Santander Cultural em Porto Alegre, foi o ápice da ignorância artística.

Os protestos que resultaram no cancelamento da mostra, um mês antes do previsto, têm motivos pra lá de ultrapassados, como desrespeito à Jesus Cristo, apologia à pedófila, zoofilia e ao homossexualismo, entre outras aberrações vociferadas no mundo virtual.

Para amenizar nossa vergonha o Movimento Brasil Livre (MBL) reivindicou a autoria, do que defino como um atentado terrorista à arte. Evidentemente não será fácil para os portoalegrenses livrarem-se dessa mancha de censores da cultura.

Envergonhada custo a acreditar que isso esteja acontecendo no nosso estado, tido como um dos mais politizados do país e com sólida formação cultural.

Nem o pioneirismo jurídico na defesa dos direitos dos homossexuais e respeito à diversidade foi suficiente para barrar esse retrocesso.

Os gaúchos vivem tempos difíceis e os acontecimentos estão aí para, espero, promover grande reflexão.

Tivemos o Ministério Público estadual sugerindo um tipo de toque de recolher na Cidade Baixa; o prefeito da capital conseguiu, na justiça, proibir protestos contra o seu governo; a Brigada Militar barrou o protesto do Grito dos Excluídos e vem agindo de forma questionável o em desocupações; escolas são cravejadas de balas por criminosos, em horário de aula; professores são espancados por alunos e pais e por aí segue uma vergonhosa lista.

Espero que o escudo contra esse conservadorismo seja o nosso currículo de comprometimento com a cultura.

A capital gaúcha realiza a maior feira literária a céu aberto da América Latina, o Porto Alegre em Cena é uma referência em teatro internacional e há 20 anos seríamos a Bienal de Artes Visuais do Mercosul, só para citar alguns eventos do circuito internacional.

Gaudêncio Fidelis, curador da exposição – entrevista para Ivan Mattos do Jornal do Comércio

Famílias humilhadas e um deputado preso na reintegração de posse da ocupação Lanceiros Negros


Deputado Jeferson Fernandes tenta negociação com a BM- Foto Guilherme Santos Sul 21

A ação da Brigada Militar, durante a reintegração de posse de um prédio do Estado, na noite desta quarta-feira (14), foi, no mínimo, um excesso desnecessário. Às 19h30min os policiais começaram a retirar as 70 famílias da ocupação Lanceiros Negros na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no Centro de Porto Alegre. O presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa foi até o local e argumentou que havia crianças no imóvel, que era noite fria e que as pessoas não tinham para onde ir.

Jeferson Fernandes (PT) tentou mediar o conflito, apelou para o bom senso, pediu que chamassem o comandante da tropa, mas foi tudo em vão. Os vídeos e as fotos revelam a falta de diálogo por parte da autoridade policial e o uso exagerado da força. Alguns tentaram resistir, mas não suportaram os gases de pimenta e lacrimogênio, cassetete e, principalmente, a intolerância.


Prisão de Jefferson-Fernandes -foto-Guilherme-Santos-Sul-21

O deputado foi preso, algemado e jogado no camburão com outras pessoas detidas, mas não consta que tenha cometido crime inafiançável. Talvez tenham interpretado como desacato à autoridade ou obstrução da justiça. Deram umas voltas pela capital e depois o largaram em frente ao Theatro São Pedro. Até parece aquelas cenas de filme policial quando jogam a pessoa no meio da rua com o carro ainda em movimento.

Fernandes na Delegacia, acompanhado dos deputados petistas Adão Vilaverde (E) e Adão Preto (Presidente da Assembleia RS)

Se faltou experiência ou bom senso aos oficiais de justiça, que o comandante da ação os alertasse para os protocolos mínimos de civilidade nas desocupações. Ao contrário, se foi a autoridade policial que perdeu o rumo, que a justiça, representada no local pelos oficiais, chamasse a atenção sobre os mesmos protocolos.

Não pensaram. Cegamente cumpriram a lei e jogaram cerca de 200 pessoas na rua. Pais sem saber para onde levar seus filhos numa típica noite de inverno gaúcho. Não havia um lugar adequado para encaminhar as pessoas. Fico me perguntando qual é a necessidade de retirar as famílias à noite, sem ter uma solução para o caso?

O imóvel não tem as mínimas condições de abrigar repartições públicas há no mínimo uma década, a menos que passe por uma grande reforma, o que deverá custar milhões. Para um Estado endividado que atrasa salários,repasses para hospitais e não reforma escolas, entre outras obrigações?

Os cidadãos da ocupação Lanceiros Negros perderam o teto, foram maltratados e humilhados pelos representantes do Estado. Definitivamente não é isso que esperamos do poder público.